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terça-feira, 17 de abril de 2018

LUCUBRAÇÕES MACABRAS
“O causo de Joana três beiços e o castigo de Ogun”
Capitulo 4
Obs: No terreiro de Humberto dos trezentos.
Antes da chegada de Filó Humberto mandou arrumar uma esteira e um lençol e uma quartinha no barracão, pra colocar ela e ver realmente o que teria acontecido se era santo mesmo ou outra coisa. O carro chegou e Parrudo avisou seu Humberto que veio rapidamente com outras pessoas da casa pra ajudar a carregar Filó até o barracão. Deixou Filó na esteira coberta pelo lençol e foi pra sala onde estava Sinhá Joana em desespero.
- Bem minha velha, vamos a “vaca fria” Filó já esta aqui, é pra recolher mesmo?
- Olhe seu Minino Humberto, veja ai e me fale, deixo ela ai aos seus cuidados e vou ver o que posso fazer por fora.
- Va ver sua vida e suas venda eu vou botar um jogo pra ver as coisas e mais tarde passo em sua casa pra conversarmos. Antes de sair ao longe Sinhá Joana ouviu:
Bolo bolo na kuatezo
Inkosi e
Bolo bolo na kuatezo
Inkosi e
Ao ouvir se deu conta que Filo ia ser Muzenza e não Iawo, não faria Ogun e sim Nkosi, assim pesando e satisfeita se foi para casa ver o que poderia arrumar pra Ogun de sua camarada. Preocupada chegou em casa, de antemão sabia que estaria sozinha durante o período de recolhimento de Filo então não podia dormir no ponto, tinha que fazer a venda toda sozinha. Entrou em casa e lembrou que era dia de ir ao Atinxã de Ogun. Primeiro sentou-se na sala descansou o corpo e em seguida pegou uma vela, dendê e vinho. Sentada pensando em sua camarada Filó, as lembranças vieram a sua cabeça e a levaram a um tempo que não tem mais volta. Sinha Joana viu-se de “surran” na esteira, o barulho do Aja e a voz do velho:
Vodunsi imanado zereii
Io lenuncio lenuncio
É no xauere
Vodunsi imanado Ogun abei
Io lenuncio lenuncio
É no xauere
As lagrimas desceram molhando suas faces ebúrneas, ela sentiu vodun Leba passar apressado em direção do seu “atinxã”, o frio perpassou sua coluna, todos os vodun estavam presentes naquele momento com sua filha abençoada. Sinhá Joana, acordou do torpor, abriu os olhos e viu que estava em sua casa, sacudiu os ombros, bateu o pé três vezes no chão e pôs a mão no chão levou a cabeça e aos poucos foi levantando pra ir ver seu amado Ogun, incontinente atravessou a pequena sala, passou pela cozinha saindo no quintal, parou na porta olhando em volta, olhou a velha jaqueira o atinxã de Ajunsun, o Akoko rodeado pelos Peregun onde ficava escondido o velho “parabélo” embaixo de muito mariwo que representava Ògún, pegou um velho apoti e foi-se acercando de Ògún, botou o apoti no chão perto do atinxã, sentou-se devagar e escorregou aos poucos pondo os joelhos no chão, acendeu a vela. Sua memoria fervilhava de velhas lembranças, O Velho Cristóvão de Ògún ajoelhou-se ali e cantou:
Ogun ala koro
Ki sajo ki so e
A rewa rewa
Ki sajo hi so e
Assim pensando pegou o dendê e aos poucos foi regando Ògún, pegou o vinho fez o mesmo e lembrou-se do dia que Tata Lesengue foi a sua casa e viu Ògún e cantou:
É Nkosi mukunbi
Tara messa dengue
Go e ae ae
Go e ae ae
Go e ae
É nkosi mukumbi
Tara messa kala
Com senzala é nkosi
Com senzala é nkosi
Com sere manda kala
Com senzala.
Nessas alturas o vinho esborrava pelas bordas do alguidar e ao cair molhou seu pé fazendo com que Sinhá Joana acordasse dos devaneios, sacudiu a cabeça saindo estado de letargia, olhou o assentamento do Orixá desculpando-se pelo exagero. A cantiga do recolhimento de Filó estava em sua cabeça como “visgo de jaca” o fato de Filó fazer santo de Angola a incomodava, afinal ela era de uma rama importante de Jeje Mudubi e sua camarada seria “Muzenza”, nesse momento sacudiu a cabeça e deu de ombros, e dai o importante é que ela vai fazer seu santo.

Continua no próximo capitulo.
Baba Gilberto de Esu

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